A história de amor sem fim de Abraão e Sara
A história de Abraão é maravilhosamente maior do que o próprio Abraão. Quando o profeta Isaías (cujas “grandes palavras”, declarou o Salvador, devem ser examinadas “diligentemente”) dirigiu-se àqueles que “buscam a justiça”, ele os incentivou a lembrar não apenas de seu ilustre antepassado, mas também de sua igualmente ilustre antepassada: “Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz… porque o Senhor consolará Sião.”
A história de Abraão e Sara é verdadeiramente a história de Sião, começando com dois corações unidos como um só em uma das maiores histórias de amor já registradas. É uma história que continua até hoje, e da qual também fazemos parte.
Seus nomes inicialmente eram Abrão, “o pai é exaltado”, e Sarai, “princesa”. Qualquer que tenha sido sua ligação com alguma dinastia terrena governante, ela certamente era uma princesa tanto em aparência quanto em comportamento. Sua impressionante beleza física chamava a atenção de reis, mas sua verdadeira beleza, que apenas aumentaria com os anos, era a beleza da alma. Ela era, de fato, a parceira ideal de Abraão, destinada a ser sua esposa, diz a tradição judaica, mesmo antes de ambos nascerem. E o que havia sido preparado no céu aconteceu na terra, segundo nos dizem, por causa da vida virtuosa que levaram desde jovens.
Sobre Sarai ouvimos pouco antes de seu casamento com Abrão, mas seu estreito parentesco pode sugerir que se conheciam desde cedo. Podemos até supor que sua fé e suas orações já tivessem influenciado as severas provações que ele enfrentou quando jovem. O que sabemos com certeza é que ela era, como relatou o estudioso judeu do primeiro século Philo de Alexandria, “a alegria do coração dele”, e que o amor entre eles era profundo.
Seus talentos e dons espirituais eram complementares, e em alguns aspectos os dela até superavam os dele. Mas desde o início do casamento, ela foi seu apoio fervoroso, amiga fiel e confidente íntima.
Um só coração e uma só mente
“Em todo lugar e sempre”, escreveu Philo, “ela estava ao lado dele… sua verdadeira companheira na vida e nos acontecimentos da vida, decidida a compartilhar igualmente o bem e o mal.” O relacionamento deles possuía a mesma qualidade do que era vivido pelos antigos habitantes da cidade de Sião de Enoque, assim chamada, como nos é dito, “porque eram um só coração e uma só mente.”
Os trabalhos conjuntos de Abraão e Sara tornaram-se lendários. No Livro de Abraão, quando o patriarca se prepara obedientemente para deixar Harã rumo a uma terra que nunca viu, ele menciona que ele e Sara levaram consigo “as almas que havíamos ganho.” Seus esforços cooperativos em ganhar almas são amplamente registrados na tradição judaica, que relata que, onde quer que se estabelecessem, mantinham as portas abertas continuamente, acolhendo todos os necessitados para receber alimento físico e renovação espiritual.
“Abraão, nosso pai, costumava trazer [as pessoas] para sua casa, dar-lhes comida e bebida e tratá-las com bondade”, oferecendo ensinar as verdades de Deus a todos os interessados. “Abraão convertia os homens e Sarai as mulheres.” Em um mundo conhecido por sua violência e crueldade, um casal estendia a mão com amor para abençoar a humanidade.
Esses esforços trouxeram uma promessa divina notável: todos os que recebessem o evangelho seriam contados como descendência de Abraão. Parecia uma confirmação divina dos papéis de mãe e pai que Sara e Abraão já vinham desempenhando ao abençoar os necessitados e levar almas a Cristo. Nesse sentido, Abraão e Sara já eram pais de uma nova e florescente comunidade de justos, uma nova Sião em formação.
Promessas, provações e fidelidade
Mas a promessa divina ia além, anunciando que Abraão teria descendência literal por meio da qual Deus abençoaria todas as nações e famílias da Terra. Nada poderia trazer maior alegria ao coração de Abraão e Sara, que até então não tinham filhos. Quanta expectativa essa promessa deve ter despertado, quantas conversas deve ter provocado, quantos sonhos deve ter inspirado. Com a maior esperança, deixaram Harã para receber as bênçãos prometidas de uma posteridade que mudaria o mundo.
Mas Sara permaneceu sem filhos, enquanto a jornada parecia levá-los de uma dificuldade a outra. Para seu crédito eterno, o registro dessas provações fala de suas orações, não de protestos, pois enfrentaram as dificuldades com crescente paciência e fé.
Uma dessas provações foi a severa fome que surgiu pouco depois de chegarem à terra prometida. A situação tornou-se tão grave que foram obrigados a ir para o Egito, onde as colheitas dependiam não da chuva, mas das cheias anuais do Nilo.
Na noite antes de cruzarem a fronteira, Abraão foi divinamente avisado de que essa jornada o colocaria em perigo mortal, perigo que seria evitado se, conforme a vontade do Senhor, Sara dissesse ser irmã de Abraão. Essa orientação divina não aparece na Bíblia, mas está no Livro de Abraão e em um dos Manuscritos do Mar Morto, que acrescenta que Sara chorou naquela noite e não queria ir ao Egito. É um detalhe revelador, mostrando que ela preferia enfrentar a fome do que negar seu casamento e os convênios eternos que havia feito. A integridade era uma de suas marcas.
Com sua esposa chorando, Abraão perguntou ao Senhor se realmente precisavam ir ao Egito, e soube que sim. Como então ele convenceu Sara? Com paciência e persuasão. Tudo ficaria bem, assegurou ele, se seguissem as instruções do Senhor.
Mas quando ela foi levada à força pelos soldados egípcios ao palácio de Faraó, enfrentou o maior dilema de sua vida. Para obedecer ao conselho do marido, deveria dizer que era irmã dele, ocultando o casamento. E para ser fiel a seus convênios, não poderia permitir que Faraó a possuísse, ainda que sua recusa significasse morte certa.
Abraão havia obedecido à voz do Senhor. Ela obedeceria ao conselho do marido, mesmo ao custo da própria vida? Ou escolheria abandonar as dificuldades e tornar-se rainha do Egito, com toda a riqueza e glória que o mundo podia oferecer?
Arriscando a vida, escolheu guardar seus convênios, provando sua lealdade absoluta ao marido e a Deus. Deus respondeu enviando um anjo para protegê-la e afligindo Faraó e sua corte com graves pragas. Todo o episódio foi considerado pelos antigos como “um evento crucial na história da humanidade”, culminando na cena representada no Fac-símile 3 do Livro de Abraão, onde Abraão se senta, a convite, no trono de Faraó.

Sacrifício, espera e cumprimento da promessa
Retornando à terra prometida com a riqueza concedida por Faraó, Abraão e Sara retomaram seu ministério conjunto de amor. Como disse um rabino moderno, eles “não eram apenas um casal”, mas uma equipe, “caminhando juntos no mesmo caminho, unidos em pensamento, palavra e ação.” Juntos serviam, juntos obedeciam e juntos acreditavam nas promessas de posteridade, supondo naturalmente que essas promessas eram para ambos como pais.
Até que um dia Sara foi dominada pelo pensamento de que as promessas nunca a mencionaram especificamente como mãe. Então, conforme os costumes legais da época, apresentou ao marido uma segunda esposa. Os relatos indicam que ela fez isso por Abraão, embora soubesse que ele não aceitaria se não acreditasse que ela realmente desejava isso. Assim, pediu que o fizesse por causa dela, para que a descendência fosse considerada sua por adoção. Cada um buscava primeiro a felicidade do outro, e Abraão aceitou apenas depois de receber revelação.
O ato de Sara ao entregar sua serva Hagar a Abraão é elogiado como um dos maiores atos de abnegação de sua vida. Da união nasceu Ismael. Seria esse o cumprimento da promessa? Só o tempo diria.
Quando finalmente entrou na menopausa, Sara percebeu que não seria a mãe biológica da grande posteridade prometida. Mesmo assim, não houve amargura nem palavras duras. Ela se alegrou com o sucesso do marido, personificando a caridade que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
Um dia, ao ouvir um viajante desconhecido dizer que teria um filho, riu em silêncio. Mas o viajante era um mensageiro de Deus, trazendo uma bênção que mudaria o curso da natureza e realizaria o desejo de seu coração. Como disse Søren Kierkegaard: ser eleito de Deus é muitas vezes ter os desejos da juventude negados para que sejam cumpridos na velhice.
O bebê recebeu o nome Isaque, “rir” ou “alegrar-se”. O nome lembrava a alegria de seus pais e apontava para a alegria futura trazida por Jesus, descendente de Isaque, também nascido de modo milagroso.
Um legado eterno de amor e Sião
A alegria de Sara não diminuiu seu serviço aos outros. Continuou trabalhando ao lado do marido para edificar o reino de Deus e servir os necessitados. Segundo a tradição, acolhiam incansavelmente “os humildes, os oprimidos, os necessitados e os aflitos.” Sua lâmpada estava sempre acesa, e o Espírito era manifesto em sua vida. Era lembrada como “sem mancha e de fé completa”, um verdadeiro “tecido de perfeição”. [15] Até a tradição muçulmana, por meio de Al-Tabari, afirmou que ela “foi um dos melhores seres humanos que já existiram.”
Mas sua maior glória não veio de realizações individuais, e sim de sua fidelidade à eterna união com Abraão na construção de Sião, começando pelo casamento deles. Sua abnegação mútua mostra que, quando tudo é reduzido ao essencial, “resta apenas um grande amor.”
Não é de admirar que, ao morrer, Abraão chorasse profundamente, acompanhado por multidões que vieram honrar essa mulher que fora como uma mãe para muitos. Ela partiu, mas o amor deles não foi vencido pela morte. A revelação moderna sobre a vida eterna apresenta Abraão e Sara como modelo do casal exaltado que desfruta aumento eterno tão vasto quanto as estrelas do céu. Na Terra, sua posteridade continua a crescer como a areia do mar. Como parte dessa posteridade, somos convidados a seguir seu exemplo e tornar-nos famílias eternas na presença de Deus.
Somos, e sempre seremos, parte de sua história contínua.
Fonte: Meridian Magazine
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